Arquivos e textos de fundo do Blog Cabalas.

Segunda-feira, Março 05, 2007

Biocombustíveis

A utilização de parcela crescente das terras agriculturáveis do mundo
para o plantio de matéria prima de biocombustívies levanta questão
sobre os problemas da fome e da falta d'água que atingem cerca de um
bilhão de pessoas.

Verena Glass - Carta Maior


-
SÃO PAULO - O etanol, combustível muito em voga depois da recente
divulgação das perspectivas sombrias do aquecimento global, há tempos
tem jogado um papel importante no cenário agrícola mundial, uma vez
que se trata de energia produzida, basicamente, a partir da cana de
açúcar, do milho e de madeira.

Para o mercado internacional, é fato que o etanol é muito mais uma
alternativa aos altos preços do petróleo do que uma preocupação
ambiental, o que alimenta todo tipo de especulações sobre o seu
potencial de crescimento. Segundo o pesquisador Luis Cortez, da
Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), o mercado mundial produz
atualmente algo como 40 bilhões de litros de etanol; para se
substituir 10% da gasolina no mundo, será preciso aumentar este volume
para cerca de 150 bilhões de litros.

No Brasil, responsável hoje pela produção de cerca de 16 bilhões de
litros de álcool combustível, a cana ocupa uma área agrícola de cerca
de 5,5 milhões de hectares. Num exercício de futurismo, Luiz Cortez
avalia que, se se planejasse atingir no país a marca de 110 bilhões de
litros anuais - meta proposta ano passado por Jeb Bush, irmão do
presidente dos EUA, para todo o continente americano -, os canaviais
teriam que ocupar 75 milhões de hectares, o que ultrapassaria os 55
milhões que perfazem toda a área usada hoje pela agricultura nacional.
Portanto, para o mercado o grande desafio agora é detectar os
potenciais campos de biocombustível para atender a crescente demanda.

Segundo o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID, cujo
presidente, Luis Alberto Moreno, lançou recentemente, junto com o ex-
Ministro da Agricultura, Roberto Rodrigues, e o mesmo Jeb Bush, a
Comissão Interamericana do Etanol), a União Européia estaria fora do
jogo, já que teria que utilizar 70% de sua área agriculturável para
atingir a meta de 10% de substituição dos fósseis por etanol. Já os
EUA, que querem trocar 20% da gasolina por etanol até 2017, mesmo
utilizando o potencial máximo de sua agricultura para a produção de
milho (matéria prima usada no país), chegariam apenas aos 15%.

Já a América Latina, afirma o BID, apresenta as condições ideais de
clima e espaço para a produção de matéria prima (cana e milho). "Com o
Brasil na liderança da produção de etanol, uma densidade demográfica
baixa, no geral com clima úmido, e o potencial de melhorar a
eficiência da agricultura, a América Latina apresenta grandes
vantagens no sentido de se tornar um grande produtor de
biocombustível", avalia o banco, apostando também em inovações
tecnológicas que permitirão produzir com maior eficiência etanol de
madeira e celulose.

As vantagens para os países latinos, diz o BID, são geração de postos
de trabalho nos diferentes estágios de produção do combustível, e
fortalecimento das economias nacionais. O banco reconhece, no entanto,
que haverá impactos negativos, como "concentração de terra, redução de
empregos [no campo] por conta da mecanização, e aumento dos preços dos
insumos agrícolas". Por outro lado, "o agronegócio terá seu lucro
assegurado", bem como os grandes monocultivos e distribuidores de
combustível.

Por fim, África e Ásia fecham, ainda com menor peso, as apostas para o
mercado de etanol. Pioneira na África do Sul, a empresa Ethanol
África, uma holding composta de várias multinacionais, traça um esboço
do que espera da região. "Os africanos têm o potencial de se tornar os
Árabes da indústria de biocombustíveis. Temos um potencial para
utilizar vastas áreas deste continente massivo para produção destes
combustíveis, só precisamos de água e fornecimento de energia", diz
Johan Hoffman, diretor executivo da empresa, que já programou a
construção de oito usinas na África do Sul.


Etanol e a fome

Em um mundo onde, de acordo com as Nações Unidas, 1 bilhão de pessoas
sofre de fome crônica e má nutrição, e 24 mil morrem diariamente de
causas relacionadas a esses problemas - entre estes, 18 mil são
crianças -, faz-se necessário questionar se as terras do planeta se
destinarão preferencialmente a atender aos cerca de 800 milhões de
proprietários de automóveis, ou à garantia da segurança alimentar
mundial. E mais, se o Sul continuará a desempenhar o papel de
fornecedor da matéria prima necessária para possibilitar ao Norte
manter seu padrão de consumo.

O caso mais conhecido de impactos da demanda por etanol sobre a
segurança alimentar vem ocorrendo no México, atualmente grande
fornecedor de milho para fabricação de biocombustível para os EUA. Nos
últimos anos, a exportação do grão levou a um aumento exponencial (em
algumas regiões chegou a 100%) do preço da tortilla de milho, base da
alimentação de mais de 50% da população mexicana. Em proporção
parecida, também houve aumento da ração animal (gado, aves, suínos e
outros) e das sementes para plantio.

O questionamento a se fazer então, segundo o jornalista econômico
americano Ronald Cook, é: "se os preços do milho vem crescendo até 55%
ao ano, isso não aumentará o preço da carne, do frango, do peixe, do
leite e dos ovos? Ou do cornflakes, do óleo de milho, e de milhares de
outros alimentos que usam o grão como base? [Nos EUA], desde 2000 o
preço da carne subiu 31%, do ovo 50%, do adoçante de milho, 33% e do
cornflakes, 10%".

"Distúrbios" na produção, oferta e preços de alimentos são um fenômeno
comum onde os investimentos em biocombustíveis têm aumentado. Kelly
Naforte, membro da coordenação do MST em Ribeirão Preto (SP), o maior
pólo canavieiro do país, constata que, há muito, a maior parte dos
alimentos consumidos no município vem de fora. Nos últimos anos, até
frutas e legumes não são mais produção própria, afirma. "Ainda temos
alguns pequenos agricultores [produtores de alimentos] na região, mas
a cana e o eucalipto estão fechando o cerco sobre eles também",
comenta Kelly.


Etanol e a sede

A observação do diretor executivo da Ethanol África, Johan Hoffman, de
que "só precisamos de água e fornecimento de energia" para transformar
o continente africano em um gigante bioenergético, contém um elemento
interessante: a produção de matéria prima para o etanol, e a
fabricação do próprio combustível, é dependente de uma grande oferta
de água.

Segundo o consultor ambiental e editor da revista inglesa New
Scientist, Fred Pearce, "a cana é uma das culturas mais sedentas do
planeta. Na maior parte do mundo, utiliza-se caros sistemas de
irrigação que têm atingido grandes rios e lençóis freáticos. A medida
de consumo da cana é de 600 toneladas de água para uma tonelada de
produto". Atualmente, adenda, 1 bilhão de pessoas não tem acesso à
água potável.

Segundo o pesquisador da Embrapa Meio Ambiente, José Maria Ferraz, os
gastos de água embutidos tanto na produção de cana quanto na do
próprio etanol - na produção de um litro de álcool gasta-se 13 litros
de água, e ainda sobram 12 litros de vinhoto, sub-produto extremamente
poluente normalmente utilizado na adubação dos canaviais - não é
considerada no preço de venda, o que, do ponto de vista econômico, é
uma grande desvantagem para o produtor, uma vez que a água está se
tornando um bem altamente valorizado.

Em que medida os governos e o mercado têm direito de transformar a
agricultura de produtora de alimentos em produtora de combustível é um
debate ético urgente. Ou, mais que ética, quando esta em jogo a
sobrevivência mais básica da população mundial e seu direito
fundamental à comida e à água, a questão se torna política. Perante as
ameaças do aquecimento global, potencializado por um doentio e
insustentável padrão de consumo principalmente dos países ricos, não
se pode deixar de acessar todo e qualquer instrumento que se
contraponha à catástrofe ambiental. Mas há que se pesar quais são
realmente as mudanças mais necessárias: se o hábito de comer e b


Com informações do boletim Inovação Unicamp

0 comentários:

Visitas a este blog