Recebi por email este artigo de Eugénio Rosa sobre os gastos do Estado com a saúde:
A SAÚDE E OS CUSTOS DA SAÚDE EM PORTUGAL
RESUMO DESTE ESTUDO
A saúde continua a ser um direito garantido a todos os portugueses pela Constituição da República. Apesar disso, o actual governo desencadeou um forte ataque contra esse direito que tem provocado o protesto das populações por todo o País. E o principal argumento utilizado pelo governo na sua campanha contra a saúde dos portugueses é que os custos com o Serviço Nacional de Saúde têm crescido de uma forma insustentável e que é preciso reduzi-los. Por isso, interessa analisar este argumento do governo (os custos) para responder à campanha lançada pelo governo contra este direito fundamental dos portugueses.
Entre 1970 e 2003, portanto num período de 33 anos, as despesas com a saúde em dólares PPC (Paridades Poder de Compra), aumentaram por habitante em Portugal 1.764 dólares, enquanto cresceram na Dinamarca 2.368 dólares, na Alemanha 2.726 dólares e nos Estados Unidos 5.288 dólares por habitante. Durante o mesmo período a mortalidade infantil diminuiu em Portugal 51 pontos; na Dinamarca 9,8; na Alemanha 18,3 e nos Estados Unidos a redução foi de 13 pontos. Também durante o mesmo período, a esperança de vida à nascença aumentou em Portugal 9,8 anos, na Dinamarca 3,9 anos, na Alemanha 8 anos e nos Estados Unidos 6,3 anos.
Portugal é igualmente um dos países da OCDE onde a comparticipação do Estado na despesa total da saúde é mais baixa. Em percentagem, em Portugal a comparticipação do Estado na despesa total
Entre 2004 e 2007, as transferências do Orçamento do Estado para o Serviço Nacional de Saúde aumentaram apenas 2,2%, enquanto o PIB, a preços correntes, cresceu 10,7%, o que determinou que a percentagem que essas despesas representam
Os gastos do Estado com a “Função de saúde”, medidos
Entre 2004 e 2007, as Despesas Totais do Estado aumentaram 9,6%, enquanto as despesas do Estado com a Educação e Saúde dos portugueses cresceram apenas 2,2%, ou seja, quatro vezes menos. E entre 2004 e 2007 os preços aumentaram 8%, o que significa que, em termos reais, o valor atribuído pelo Estado à Educação e Saúde seja inferior ao valor de 2004 ( menos 5,4%). Estes dados revelam a pouca importância que este governo dá à saúde e à educação dos portugueses, factores chaves para o desenvolvimento do País e para o bem estar dos portugueses. O défice parece ser para este governo mais importante que os portugueses.
O “bem saúde” é um bem diferentes de todos os outros, pois tem a ver com a qualidade e mesmo com a vida humana. O não acesso a ele determina uma vida sem qualidade ou mesmo a perda da vida. È por esta razão que, diferentemente do que acontece com a generalidade de outros bens, a Constituição da República de 1976, no seu artº 64, estabelecia que “ o direito à protecção à saúde é realizado pela criação de um serviço nacional de saúde universal, geral e gratuito”. E mesmo quando este preceito constitucional foi revisto por pressão do neoliberalismo cada vez mais dominante na sociedade portuguesa, mesmo assim o “novo” artº 64, que está actualmente em vigor, dispõe que “todos têm o direito à protecção da saúde … e é realizado através de um serviço nacional de saúde universal e geral e, tendo em conta as condições económicas dos cidadãos, tendencialmente gratuito”. Portanto, a Constituição, a mãe
Apesar da Constituição da República garantir o direito à saúde a todos os portugueses, mesmo assim tem-se verificado nos últimos anos, e nomeadamente
OS GANHOS
As despesas com saúde não podem ser dissociadas dos ganhos de saúde. E isto porque a redução da mortalidade infantil ou o aumento da esperança de vida, por exemplo, têm custos, e esses custos são os aumentos dos gastos com saúde. O quadro seguinte, construído com dados divulgados pela OCDE, mostra o retorno dos gastos com a saúde em Portugal e em outros países.
QUADRO I – Aumentos de ganhos em saúde e das despesas com saúde entre 1970-2003
| | Taxa mortalidade Infantil ( Mortes por mil nascimentos) | Esperança vida Nº de anos | Despesas de saúde Dólares (USD PPC) por Habitante | ||||||||
| PAISES | 1970 | 2003 | Redução | 1970 | 2003 | Aumento | 1970 | 2003 | Aumento | ||
| PORTUGAL | 55,1 | 4,1 | -51,0 | 67,5 | 77,3 | 9,8 | 51 | 1.797 | 1.746 | ||
| Dinamarca | 14,2 | 4,4 | -9,8 | 73,3 | 77,2 | 3,9 | 395 | 2.763 | 2.368 | ||
| Alemanha | 22,5 | 4,2 | -18,3 | 70,4 | 78,4 | 8,0 | 270 | 2.996 | 2.726 | ||
| EUA | 20,0 | 7,0 | -13,0 | 70,9 | 77,2 | 6,3 | 347 | 5.635 | 5.288 | ||
| Fonte : OCDE | | | | | |||||||
Entre 1970 e 2003, portanto num período de 33 anos, as despesas com a saúde em dólares PPC (Paridades Poder de Compra), portanto anulando o efeito
Em resumo, entre 1970 e 2003, Portugal foi o país onde a despesa com a saúde aumentou menos por habitante ( + 1.746 dólares PPC), mas onde os ganhos em saúde foram maiores, estando neste campo, contrariamente ao que sucede em outros, entre os primeiros países do mundo (tenha-se presente, que num estudo recente foi atribuído ao Serviço Nacional de Saúde português o 12º ano lugar entre os melhores do mundo).
A confirmar a conclusão anterior, está ainda o facto que, de acordo com a OCDE (OECD Health Data 2006), entre 1995 e 2004, o aumento médio das despesas de saúde foi em Portugal de 3,2% ao ano, enquanto em Espanha atingiu 4,2% ao ano; nos E.U.A. 4,8% ao ano; na Finlândia 4,4%; na França também 4,4% ao ano; na Grécia 4,9% ao ano; na Irlanda 7,4% ao ano; na Itália 3,3%, na Inglaterra 5,4% ao ano, e na Suécia 3,9% ao ano.
DESPESAS PRIVADAS E PÚBLICAS COM SAÚDE
Os valores de despesas com saúde apresentados incluem a parte que é paga pelo Estado (despesa pública) e a parte que é suportada directamente por cada português (despesa privada). O quadro seguinte, construído com dados também divulgados pela OCDE, mostra como aquela despesa se reparte em Portugal e em outros países.
QUADRO II – Despesas totais por habitante e a parte que é paga pelo Estado - 2004
| PAISES | Dólares PPC Por Habitante - TOTAL | Dólares PPC por Habitante - Pública | % PUBLICA do TOTAL |
| PORTUGAL | 1.813 | 1.304 | 71,9% |
| OCDE | 2.550 | 2.050 | 80,4% |
| Espanha | 2.094 | 1.485 | 70,9% |
| Finlândia | 2.235 | 1.712 | 76,6% |
| Irlanda | 2.598 | 2.065 | 79,5% |
| Dinamarca | 2.881 | 2.388 | 82,9% |
| Alemanha | 3.005 | 2.350 | 78,2% |
| Estados Unidos | 6.102 | 2.728 | 44,7% |
| PORTUGAL/OCDE | 71,1% | 63,6% | |
| Fonte : OCDE | |||
Como mostram os dados do quadro, é precisamente em Portugal que a despesa pública por habitante, em dólares PPC, é mais baixa. Comparando Portugal com a média dos países da OCDE, em
AS TRANSFERÊNCIAS DO ESTADO PARA O S.N.S. TÊM DIMINUIDO
A partir de 2004, tem-se verificado em Portugal uma redução, em termos reais, do valor das transferências do Estado para o Serviço Nacional de Saúde, como mostram os dados do quadro seguinte.
QUADRO III - Valor das transferências do O.E. para o SNS em % do PIB
| ANOS | PIB | Orçamento do Estado Transferências para SNS | % Transferências |
| | Milhões euros | Milhões euros | Em relação ao PIB |
| 2004 | 144.274,4 | 7.509,8 | 5,2% |
| 2005 | 149.021,4 | 7.634,0 | 5,1% |
| 2006 | 155.289,3 | 7.636,7 | 4,9% |
| 2007 | 159.716,2 | 7.674,8 | 4,8% |
| Aumento % | 10,7% | 2,2% | |
| FONTE: PIB : 2004-2006: INE; 2007: Relatório OE2007 | |||
| Transferências para o SNS : Relatório OE2006 e OE2007 | |||
Entre 2004 e 2007, as transferências do Orçamento do Estado para o Serviço Nacional de Saúde aumentaram apenas 2,2%, enquanto o PIB, a preços correntes, cresceu 10,7%, o que determinou que a percentagem que essas despesas representam
Quando os custos da saúde aumentam em todos os países do mundo, em Portugal o
REDUÇÃO DAS DESPESAS DO ESTADO COM A FUNÇÃO “SAÚDE”
Para além das transferências para o Serviço Nacional de Saúde, o Estado tem de suportar outras despesas igualmente com a saúde, nomeadamente despesas com os chamados subsistemas de saúde ( ADSE, sistema de saúde dos militares, etc.). Esses gastos também com a saúde, incluindo as transferências para o S.N.S. , são todos incluídos na chamada “Função saúde”. E os gastos que o Estado tem com essa função constam do quadro seguinte.
QUADRO IV – Gastos do Estado com a “Função Saúde “ - 2004-2007
| ANOS | PIB pm | Gastos do Estado com a “Função SAUDE” | % que gastos com “função Saúde” representam do PIB |
| | Milhões euros | Milhões euros | PIB |
| 2004 | 144.274,4 | 8.424,0 | 5,8% |
| 2005 | 149.021,4 | 8.998,0 | 6,0% |
| 2006 | 155.289,3 | 8.871,2 | 5,7% |
| 2007 | 159.716,2 | 8.876,0 | 5,6% |
| Aumento % | 10,7% | 5,4% | |
| FONTE: PIB : 2004-2006: INE; 2007: Relatório OE2007 | |||
| Despesas do Estado com a função "saúde" : Relatório OE2006 e OE2007 | |||
Como mostram os dados do quadro, também os gastos do Estado com a “Função de saúde”, medidos
O
Não é apenas na saúde que o governo está a reduzir gastos movido pela “ambição de reduzir o défice”. Na educação verifica-se o mesmo. E como se sabe, a saúde e a educação são fundamentais não só para as pessoas mas também para aumentar a produtividade e a competitividade da economia portuguesa. Os dados constantes do quadro seguinte mostram com estão a ser tratadas estas duas funções – saúde e educação – pelo
QUADRO V – Despesas do Estado com a Saúde e Educação – Período : 2004/2007
| ANOS | Despesas Totais do Estado | Despesas do Estado com “Educação+Saúde” | % despesas com “Educação + saúde “ | |
| | Milhões euros | Milhões euros | das Despesas totais do Estado | do PIB |
| 2004 | 41.382,6 | 15.556,1 | 37,6% | 10,8% |
| 2005 | 42.752,8 | 16.357,9 | 38,3% | 11,0% |
| 2006 | 43.879,5 | 16.217,2 | 37,0% | 10,4% |
| 2007 | 45.361,1 | 15.896,1 | 35,0% | 10,0% |
| Aumento % | 9,6% | 2,2% | | |
| FONTE: PIB : 2004-2006: INE; 2007: Relatório OE2007 | ||||
| Despesas do Estado com a “Função Saúde" : Relatório OE2006 e OE2007 | ||||
Portanto, quer se compare as despesas do Estado com a “Educação + Saúde”
Economista



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