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Domingo, Abril 01, 2007

Estado Novo 1961 - O princípio do fim
VI - Operação Dulcineia, a acção

Uma onça de acção vale uma tonelada de teoria.
Friedrich Engels (1820-95)
.
A acção de ocupar e controlar o Santa Maria, não correu como previsto, alguns tripulantes resistiram, um foi morto, outro foi ferido e nenhum abraçou a causa da revolução.


O mais grave foi que ao desembarcarem o tripulante morto, o ferido e ainda um outro com um ataque de fígado em Santa Lúcia nas ainda Caraíbas, revelaram ao mundo a acção do comando do DRIL, acabando com o efeito surpresa com que Galvão contava.
Rapidamente a notícia correu mundo. É de referir que este deve ser o primeiro caso de um desvio de um navio de passageiros com fins políticos. O primeiro e praticamente o único. Só muitos anos depois se repetiu outra situação de desvio de paquetes(*). Mesmo o desvio de aviões, só se tornou vulgar alguns anos depois.


O Santa Maria, com cerca de 350 tripulantes e 600 turistas (42 dos quais americanos), fica então na posse do comando do DRIL, que na sua fase activa ficou constituído por 23 homens (12 portugueses, 11 espanhóis e 2 venezuelanos).


É curioso a aversão que Galvão mostra no seu livro por praticamente toda a tripulação do Santa Maria, com excepção do terceiro-piloto que foi morto e ao qual Galvão presta homenagem pela sua bravura.


Relata uma reunião havida no camarote do Comandante, com os oficiais do Santa Maria, logo após a tomada do navio pelo Comando.


Nessa reunião, Galvão propõe três formas de rendição:


a) Juntarem-se ao movimento;

b) Continuarem a realizar as suas funções, depois de prometerem, sob palavra de honra, cumprir as ordens do comando com zelo e lealdade;

c) Considerarem-se prisioneiros de guerra


Como é evidente o Comandante e os oficiais optaram pela segunda hipótese. Galvão, embora ficasse satisfeito com a atitude da tripulação que, lhe simplificou a acção, ridiculariza-a e, sempre que se refere aos oficiais e em especial ao Capitão, chama-lhes cobardes, seres sem coluna vertebral etc.


Esta atitude de Galvão é difícil de explicar. Primeiro porque o Comandante e a restante tripulação eram responsáveis pelo bem estar e segurança dos passageiros. Dificilmente se admitiria que cruzassem os braços e deixassem o controle do navio nas mãos de desconhecidos cujas competências desconheciam. Em segundo lugar, porque é muito duvidoso que se o Capitão e restante tripulação se tivessem recusado a obedecer a Galvão, o comando tivesse capacidade para operar o navio.


Logo que a acção se tornou conhecida, fez a primeira página nos principais orgãos de comunicação social de todo o mundo.
Entretanto a queda do factor surpresa e alguns problemas técnicos obrigaram Galvão a desistir da ideia inicial, a de rumar à Guiné Espanhola.




(*) O Achille Lauro, no Mediterrâneo.


(ver em Bibliografia uma série de artigos da época sobre Portugal, Salazar, o Estado Novo e os seus problemas, em inglês)


Estado Novo 1961 - O princípio do fim


I-Introdução


II-Resumo e cronologia dos acontecimentos


III- A Situação política internacional em 1961


IV - Henrique Galvão, de adepto do Estado Novo a prisioneiro do regime


V - Operação Dulcineia, os preparativos


VI - Operação Dulcineia, a acção


VII- Operação Dulcineia, a internacionalização


VIII - Operação Dulcineia, repercussões internas


IX - A Abrilada de Botelho Moniz


X - Os antecedentes da Abrilada


XI - Desenvolvimento dos acontecimentos


XII - A Abrilada. Conclusão


XIII - 1961, O Princípio do Fim?


Bibliografia


ANEXO, Abrilada, os actores

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