É também estranho que Mário Soares que sempre se gabou do seu apoio a qualquer tipo de colonização, pelo menos durante o salazarismo/marcelismo, tenha aproveitado a última oportunidade que tinha como colonizador para mostrar uma atitude totalmente contrária ao que sempre apreguou.
O ex-Presidente da República Mário Soares tentou atrasar para depois de 1999 a entrega de Macau à China, quando os chineses pensavam que a questão estava ultrapassada, disse ontem Zhou Nan, principal negociador chinês na transferência de Macau
Zhou Nan, então vice-ministro dos Negócios Estrangeiros chinês com a tutela das negociações de Macau, lembrou ontem em entrevista à Agência Lusa em Pequim como, numa "dramática" reunião com Mário Soares, a história das boas relações entre Lisboa e Pequim poderia tomar outro rumo.
Zhou referia-se a um encontro com o então Presidente português, em 1986, em Lisboa, durante o processo negocial que precedeu a assinatura da Declaração Conjunta Luso-Chinesa que fixou a data de 20 de Dezembro de 1999 para a reversão do território.
Depois da assinatura em 1984 da Declaração Conjunta entre a China e a Inglaterra que definiu a entrega de Hong Kong à China, contou Zhou Nan, Deng Xiaoping deu ordens para colocar na agenda do governo chinês a questão de Macau.
"Deng só deu duas instruções. A primeira, que a solução da questão de Macau deveria seguir o modelo um país, dois sistemas [coexistência do sistema capitalista em Macau e socialista na China continental]. A segunda, que o retorno de Macau deveria ser concretizado antes do fim do século, o que queria dizer antes do ano 2000", disse o ex-negociador, agora na reforma.
Zhou Nan afirmou que a posição da China quanto à data-limite sempre foi clara para Pequim e que Rui Medina, o negociador português e embaixador de Portugal na China com a categoria de ministro plenipotenciário, "nunca levantou objecções".
"A questão da data só se levantou na minha visita a Lisboa em Novembro de 1986. As autoridades portuguesas foram muito educadas. O Ministro dos Negócios Estrangeiros [Pedro Pires de Miranda] foi ao aeroporto, mantivemos uma ronda de conversações sem controvérsia alguma e convidou-me para jantar", disse Zhou, que lembra também o encontro com o então primeiro-ministro Cavaco Silva, no dia seguinte à chegada a Lisboa.
"Tivemos um almoço muito agradável e uma conversa também muito agradável, e tudo corria suavemente. Na tarde do mesmo dia tinha ficado acordado que deveria fazer uma pequena visita ao Presidente Mário Soares. Foi uma visita dramática", considerou o negociador chinês.
"O presidente não convidou nenhum responsável da parte portuguesa para estar presente e, do nosso lado, eu só tinha o intérprete de português para chinês. Só nós os três". Zhou Nan lembra-se de ter falado primeiro, de ter agradecido a Mário Soares tê-lo recebido e de lhe ter dito que tudo corria bem, que os dois lados tinham chegado a acordo sobre os temas mais importantes, e que "faltava só preparar a primeira versão dos Documentos da Declaração Conjunta".
"E de repente ele disse-me: 'nós não concordamos com a devolução de Macau à China durante este século. Terá de ser adiada até ao próximo século", contou o ex-vice-ministro chinês, que disse ter ficado "muito surpreendido, é claro".
"Eu tinha de responder de imediato e disse que o representante português, com plenos poderes, tinha concordado com a devolução até ao final do século", acrescentou.
"Se o líder da delegação portuguesa disse que concordava", respondeu Mário Soares, segundo Zhou Nan, "então a posição dele não representa a posição oficial de Portugal".
De acordo com Zhou, a reunião terminou sem resultados positivos. Zhou cancelou o resto do programa oficial, que já não incluía mais encontros oficiais mas tinha ainda uma visita turística. No dia seguinte, ao descansar no hotel, contou o negociador chinês, recebeu uma chamada telefónica "inesperada"do Ministro dos Negócios Estrangeiros, Pires de Miranda.
"Era o próprio ministro a propor mais uma ronda de conversações entre ele e eu. Foi aí que percebi que a parte portuguesa poderia mudar de opinião", disse Zhou.
O vice-ministro chinês conta ter saído de Lisboa com o agradecimento de Pedro Pires de Miranda "por ter contribuído para a definição da posição de Lisboa nesta questão importante" e com a promessa de que em Janeiro de 1987, durante a visita à China do então secretário de Estado dos Negócios Estrangeiros e Cooperação, Eduardo Azevedo Soares, Lisboa comunicaria a Pequim a resposta final quanto à questão da data.
Em Pequim, Azevedo Soares começaria por propor 31 de Dezembro de 1999 como data para a cerimónia de transferência de administração, que foi durante a mesma visita fixada no dia 19 de Dezembro.
A 13 de Abril de 1987, o então primeiro-ministro Cavaco Silva, em visita oficial à China, assinava com o então primeiro-ministro chinês Zhao Ziyang a Declaração Conjunta que punha fim a quase 500 anos de administração portuguesa de Macau.
Lembrando o que sentiu no momento e as expectativas para Macau que tinha então, Zhou Nan nem hesita - diz que "foram todas ultrapassadas".
"Desde a Declaração Conjunta, a história de Macau mais do que preencheu as minhas melhores expectativas. Em especial o rápido desenvolvimento económico, o ambiente de segurança que se vive e a estabilidade política", conclui o "velho leão" da diplomacia chinesa, que recuperou Macau para a China.



0 comentários:
Enviar um comentário