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Domingo, Abril 01, 2007

O Estado Novo em 1961
IV - Henrique Galvão, de adepto do Estado Novo a prisioneiro do regime

Terá finalmente resposta, dentro do tempo em que a importa que a tenha, esta pergunta que as Colónias de há muito vêm fazendo:
Portugueses! Tudo isto vos pertence. Quando vindes ocupar o que é vosso?
Henrique Galvão, Director da 1ª Exposição Colonial Portuguesa, 1934
A operação Dulcineia, consistiu na captura e desvio do paquete português Santa Maria, com todos os seus passageiros a bordo por um comando luso-espanol, dirigido pelo Capitão Henrique Galvão.


Henrique Galvão, um dos militares do 28 de Maio de 1926, aparentemente apoiou o estado Novo, tendo chegado a ocupar lugares de importância que obviamente pressupunham uma confiança política alargada.


Como exemplo, temos o de Director da 1ª Exposição Colonial Portuguesa, em 1940, Deputado à Assembleia Nacional, eleito por Angola (1935 e 1946), Governador de um Distrito de Angola, Director da Emissora Nacional e Inspector Superior da Administração Colonial.


Após o assalto ao Santa Maria, publicou um livro em que descreve o seu percurso político.(*)


A julgar por esta obra foi quase desde o início um opositor de Salazar, o que não o impediu de ser candidato independente por Angola, proposto pela União Nacional, às eleições para Deputados em 1935 (demitiu-se após alguns meses, por razões que não explica bem) e em 1946. No resto do tempo, esteve tão absorvido com o seu trabalho que não reparava com a devida atenção, nos efeitos e na forma de actuar da Ditadura do Estado Novo.



Frisa que foi candidato independente proposto pela União Nacional. Este facto tinha pouco significado, pois nem a União Nacional nem a sua sucessora acção Nacional Popular, eram partidos de massas. A maior parte dos Deputados era independente. Podemos dizer que foi um candidato normal.


Segundo afirma, apoiava os ideais da Revolução de 28 de Maio, ideais estes prevertidos por Salazar.


Tendo em atenção que entre 1926 e 1939, umas 15.000 pessoas foram presas por motivos políticos (quase uma média de três por dia), entre estas numerosos militares, o Capitão Henrique Galvão devia ser bastante distraído.(**)


Em 1947 apresentou à Assembleia Nacional um Relatório Sobre Problemas Nativos Nas Colónias Portuguesas. A Assembleia ouviu este Relatório em Sessão secreta. Tratava-se de um relatório demolidor sobre a situação dos africanos perante o mercado de trabalho.


Mais grave, após uma descrição terrível e de uma forma geral e, ao que nos é dado conhecer correcta, afirma, Esta é, muito resumidamente descrita, a grave situação em que os povos nativos vivem e trabalham, embora o governo tenha sido informado por mim de todos os pormenores.(***)


Em 1948, numa sessão publica da Assembleia, interpelou o governo sobre as Colónias. Deve ter sido o primeiro ataque ao Governo numa sessão pública da Assembleia Nacional. Entretanto e Relatório apresentado um ano antes foi começando a circular em cópias clandestinas.


Em consequência, foi nomeada uma Comissão dirigida por um Juíz para investigar as acusações de Henrique Galvão. Segundo Henrique Galvão, não só as suas acusações foram confirmadas, mas ainda agravadas. O relatório deste Juíz foi conservado secreto e o Juíz demitido.


Acabado o mandato como Deputado, voltou a Inspector Superior da Administração Ultramarina. Pediu então a passagem à Reforma.


Em 1951 foi Director das Relações Públicas da campanha eleitoral do Almirante Quintão Meireles à Presidência da República contra o Candidato do Estado Novo, General Craveiro Lopes. Após a eleição participou em tentativas de organizar legalmente um movimento oposicionista.


Em Janeiro de 1952, foi preso, tendo sido condenado a três anos de prisão. Depois de anulado este julgamento e realizado outro, foi novamente condenado a três anos de prisão com perda de direitos políticos por quinze anos e perda da pensão de reforma. Passado tempo foi novamente julgado por actividades políticas na prisão foi condenado a mais dezoito anos de prisão. Henrique Galvão, por vontade própria, não compareceu a este último julgamento. Dado já ter ultrapassado os 60 anos, podemos afirmar de que os brandos costumes de Salazar, não hesitaram em condenar um dissidente, que até então não tinha cometido nenhuma acção violenta(****) , a prisão perpétua.


Em Janeiro de 1959, evadiu-se do hospital de Santa Maria, em circunstâncias que, por razões de segurança, não explica totalmente.
Um mês depois iludiu a vigilância da PIDE à Embaixada da Argentina, entrou nesta embaixada disfarçado de carregador e pediu asilo político.


Esta acção decorreu enquanto havia um certo burburinho com os asilos políticos nas Embaixadas, pois o General Humberto Delgado encontrava-se refugiado na Embaixada do Brasil a aguardar um salvo conduto para sair do país.


Três meses depois Henrique Galvão recebeu também o seu salvo conduto e deixou o país rumo à Argentina. Tinha então 64 anos.




(*) O Assalto ao "Santa Maria", Edições Delfos

(**)Mattoso, José (coordenação), História de Portugal, Circulo dos Leitores, 1994, Vol VII, pag 209

(***) O Assalto ao Santa Maria, Henrique Galvão, pag 99

(****) Ou seja, a única acção violenta em que tinha participado foi no 28 de Maio de 1926

(ver em Bibliografia uma série de artigos da época sobre Portugal, Salazar, o Estado Novo e os seus problemas, em inglês)


Estado Novo 1961 - O princípio do fim


I-Introdução


II-Resumo e cronologia dos acontecimentos


III- A Situação política internacional em 1961


IV - Henrique Galvão, de adepto do Estado Novo a prisioneiro do regime


V - Operação Dulcineia, os preparativos


VI - Operação Dulcineia, a acção


VII- Operação Dulcineia, a internacionalização


VIII - Operação Dulcineia, repercussões internas


IX - A Abrilada de Botelho Moniz


X - Os antecedentes da Abrilada


XI - Desenvolvimento dos acontecimentos


XII - A Abrilada. Conclusão


XIII - 1961, O Princípio do Fim?


Bibliografia


ANEXO, Abrilada, os actores

1 comentários:

João Alves das Neves disse...

Gostaria de indicar o site Revista Lusofonia com texto do Prof. João Alves das Neves escritor e jornalista sobre o Capitão Henrique Galvão
http://revistalusofonia.wordpress.com/2009/07/05/o-navio-%e2%80%9csanta-liberdade%e2%80%9d-do-cap-galvao/.

Abraços.
Fabíola

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